Queijo de ovelha em Santa Maria

Aníbal Moura é presidente da ARCOA – Associação de Criadores de Ovinos e Caprinos de
Santa Maria. É um dos quatro produtores da ilha que ficou com 25 ovelhas francesas para a produção de leite para fabrico de queijo. Em 1928, existiam em Santa Maria quase 4.000 ovelhas, que utilizavam os solos mais pobres da zona ocidental da ilha, actualmente ocupados por infra-estruturas aeroportuárias, mas, 20 anos depois, a ovinicultura sofreu um declínio devido à construção do aeroporto, à emigração e aos ataques de cães vadios. Até Agosto do ano passado havia em Santa Maria à volta de 700 ovelhas que, além da lã para exportação, a sua carne era consumida, essen-
cialmente, na ilha. Tal como ainda hoje sucede, alguns produtores vendem carne de borrego a alguns consumidores micaelenses. Até agora, a criação de ovelhas em Santa Maria tem sido, praticamente, uma segunda ocupação. Os produtores têm as suas profissões e, de manhã, á hora de almoço e ao fim do dia, vão tra-
tar das ovelhas. Esta forma de criar ovelhas tem um senão. Como os animais ficam praticamente todo o dia
nas pastagens (as menos nutritivas porque as pastagens melhores são para o gado bovino de car-
ne), são um alvo fácil para os cães vadios. Como afirma Aníbal Moura, da ARCOA, os produtores
desanimam quando compram uma ovelha por 800 euros e, no dia seguinte, “vamos encontrar o
animal morto na pastagem”. O facto é que os produtores fizeram sentir este problema junto da Câmara Municipal de Vila do Porto que desencadeou uma autêntica caça aos cães vadios, acabando por reduzir, em grande es-
cala, a mortandade de ovelhas na ilha. Até agora, esta tem sido a rotina dos criadores de ovelhas em Santa Maria mas, para quatro produtores, tudo vai mudar no início do próximo ano. A entrada em Agosto do ano passado de 100
ovelhas de leite e quatro machos na ilha, que foram distribuídas em lotes de 25 por quatro explorações, vai mudar radicalmente a a forma de vida destes produtores e criar uma dinâmica que, a ser bem sucedida, pode ser um bom exemplo não só para Santa Maria como para outras ilhas dos Açores.
As 100 ovelhas e quatro machos reprodutores da raça Lacaune foram animais escolhidos pelos produtores marienses no solar da raça, em Millau, França. A sua entrada nos Açores já é uma “lufada
de ar fresco” e é vista por alguns técnicos o início da caminhada para uma “revolução” na pecuária
açoriana. Os mais cautelosos consideram que esta é “uma via para a diversificação agrícola e também
para a inovação na agricultura mariense, possibilitando o surgimento de um ‘produto diferenciado’
no mercado, através da produção de um queijo que possa vir a constituir-se como uma referência
e imagem de marca” da ilha e da Região. As ovelhas adquiridas foram submetidas a um
programa de sincronização de cios para posterior inseminação, de modo a chegarem à ilha de Santa Maria a meio da gestação, prevendo-se que os primeiros nascimentos ocorram no início de novembro, altura em que estão criadas condições para se fazer os primeiros ensaios para a produção de queijo de ovelha com a marca Açores.
O optimismo sobre este projecto oscila muito nas opiniões dos produtores marienses. Aníbal Moura, por exemplo, mostra-se cauteloso. Afirma que este é um projecto em experiência, financiado pelo Governo dos Açores, que “vamos ver como irá decorrer”. O actual Presidente da Associação
de Criadores de Ovinos e Caprinos de Santa Maria anuncia que se está a projectar a construção de
uma “queijaria artesanal” nas instalações da ARCOA até porque “não se pensa em embarcar” em
projectos de uma fábrica de maiores dimensões sem que se tenha uma noção sobre a evolução da
produção de leite de ovelha na ilha e que níveis de produção de queijo se podem atingir. É notório que, apesar de terem entre mãos um projecto inovador de produção de leite, os produtores de ovelhas de Santa Maria estão muito
cautelosos sobre a rentabilidade deste projecto. Até porque o queijo de ovelha mariense deve ter especificidades e particularidades muito próprias para ter espaço num mercado onde a concorrência já é significativa. Apesar de estarem conscientes desta realidade, estão dispostos a ir a luta e produzir um queijo que rentabilize as suas explorações
de ovelhas. O que é factual é que a entrada em Santa Maria das 100 ovelhas de leite e quatro machos é o
primeiro passo para um negócio que, devidamente dimensionado com uma adequada promoção, a
produção do futuro queijo de ovelha de Santa Maria, poderá estender-se a outras ilhas da Região e
chegar longe. Um dos exemplos mais próximos dos produtores de ovelhas de Santa Maria é a produção de
leite de ovelha na Serra da Estrela. Alguns produtores marienses visitaram explorações de ovelhas
de leite na Serra da Estrela e chegaram e transportar algumas para Santa Maria, mas o negócio
do queijo de leite de ovelha nunca foi uma opção com a dimensão que agora existe com a importação das ovelhas francesas. O exemplo que vem da Serra da Estrela
Do primeiro passo dado em Santa Maria, vamos dar um salto significativo para o que se passa na Serra da Estrela. Alberto Trindade Martinho nasceu na aldeia do Sabugueiro, a perto de 1100 metros de altitude. É licenciado e mestrado em Sociologia e concluiu o doutoramento em Antropologia Social e Cultural. Tem dedicado a
sua vida ao estudo da transumância de rebanhos de ovelhas e à promoção do Queijo da Serra da Estrela e dos produtos endógenos da região. Foi com recurso aos seus estudos e publicações, feitos nos anos 70, que se demarcou a região da Serra da Estrela a 16 concelhos, bem como da sua responsabilidade, a coorganização dos primeiros concursos de queijo da serra na região que dariam origem às afamadas Feiras do Queijo que existem hoje em dia.
Para além de professor universitário na Universidade Católica em Viseu e no Instituto Politécnico da Guarda, Alberto Martinho tem, ao longo dos últimos 40 anos, construído projectos turísticos e de alojamento de referência na região
da Serra da Estrela onde estabeleceu como prioridade o saber fazer da tradição familiar local.
Alberto Martinho tem publicado, desde os anos 70, algumas obras e estudos acerca da transumância de rebanhos e do queijo da Serra. Como afirma, praticamente nasceu debaixo das ovelhas.
É filho de pastores e de emigrantes. Õ seu segundo livro chama-se ‘O Pastoreio e o Queijo da Serra’
com um estudo do pastoreio na montanha. Mais tarde publicou um estudo mais alargado sobre os
concelhos limítrofes que viria a dar origem à região demarcada do queijo Serra da Estrela com
16 concelhos. Mais tarde publicou outro estudo sobre a importância económica e social do queijo
da Serra.
Resolveu, por esta altura, dinamizar, com as Câmara Municipais, as primeiras feiras e concursos de Queijo da Serra. Com a realização destes concursos e com a influência dos meios de comu-
nicação social, aproximou-se o consumidor do produtor.
Estes concursos, revela, “trouxeram a oportunidade de adquirir queijos à unidade, o que constituiu uma revolução tremenda por si só. O preço do queijo duplicou, e no terceiro ano quase triplicou. Desde aí, o queijo Serra da Estrela tem tido manifestações de grande interesse e, sobretudo, de incentivo às novas gerações, porque é uma boa
aposta que se pode fazer neste setor”. Nas suas palavras, “com 70, 80 ovelhas, qualquer casal tira mais rendimento do que um casal de professores licenciados. Hoje ser pastor é um
negócio atractivo”.
É um pouco de toda esta dinâmica que se pre-
tende com a introdução de 100 ovelhas de leite
em Santa Maria. E, curiosamente, em 1978, 70
por cento dos pastores tinham mais de 60 anos na
Serra da Estrela, era uma população demografi-
camente muito envelhecida e os rebanhos eram
de pequena monta. “Hoje os rebanhos estão a au-
mentar, a ganhar dimensão, isto também devido
às alterações na lei do arrendamento que vieram
permitir que as explorações pudessem ter mais
espaço, para poderem crescer, de modo a dimen-

sionarmos mais o número de rebanhos por explo-
ração”.
Obviamente que, depois, com esta dimensão,
vem a oscilação dos preços do leite de ovelha á
produção, o valor do queijo no mercado e a uma
aguerrida concorrência, questões para as quais os
Açores têm já experiência
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