Olhar a evolução do ciclo da vaca nos Açores

Manter o actual preço do leite à produção nos Açores e, em simultâneo, dizer ao lavrador que não pode produzir mais é colocar um travão na fileira do leite. O preço do leite está estagnado e, porque não se pode produzir mais, o cheque do leite – rendimento certo do agricultor – está a baixar.

Neste cenário, os milhões de euros, sejam da União Europeia, sejam do Estado ou mesmo da Região, que entram na conta bancária do produtor, têm uma função complementar ao rendimento do agricultor e não se destinam, como devia acontecer, à modernização e inovação das explorações agrícolas.

Os produtores só têm uma certeza: se alimentarem devidamente as suas vacas, elas vão produzir leite de qualidade que deve ser bem pago. Este é o seu rendimento de base. E se o preço baixa e não se permite mais produção, este rendimento cai.

Os milhões de euros de apoios de Bruxelas, Lisboa, ou Ponta Delgada, - que hoje são a garantia de sustentabilidade de muitas explorações agrícolas - um dia vão parar. E quando isso acontecer, porque vai acontecer, os produtores quando derem por si, têm o seu rendimento base (o resultante do leite que produzem), muito mais baixo. Isto porque, para deixarem de produzir mais leite, tiveram que abater vacas e diminuir as suas explorações.

Ou seja, os milhões de euros de apoios – que vão para a sobrevivência da exploração agrícola em vez de se destinarem à sua modernização - são ‘poeira para os olhos” dos agricultores. Isto porque, na verdade, o que está a acontecer é uma redução do rendimento base (que é o único que o agricultor tem seguro) ao mesmo tempo que as contas bancárias dos produtores estão recheadas com os apoios comunitários, nacionais e da Região. Mas, até quando isto vai acontecer? E quando desaparecer esta ‘poeira’, o que vai restar aos produtores?

É bom que fique claro que a força dos produtores não está nos milhões dos apoios (venham de onde vierem) que entram nas contas bancárias para contentamento momentâneo de todos. A sua força está no leite que produzem, de elevada qualidade. E este leite tem de ser pago de forma justa.

E não se pode pedir aos produtores para reduzirem as suas produções, intimidando com penalizações (pasme-se!) por razões de mercado derivadas da ineficiência das indústrias e da forma como é orientada a promoção dos

produtos lácteos.

Todos admitimos que se reduza a produção de leite quando estudos devidamente fundamentados, e com argumentos válidos, demonstram que está a ser negativo o impacto ambiental de um determinada número de vacas por hectare em determinada ilha, o que ainda não acontece em São Miguel.

Agora, quando se pede aos lavradores para não produzirem mais leite – que já é dos mais mal pagos da Europa – porque não se consegue mercado para os produtos lácteos, o que a indústria está a fazer é repercutir a sua falta de arte e engenho para  encontrar novos mercados para os produtos lácteos no rendimento real do produtor. E esta atitude é inadmissível e, por isso, não deve ser aceite pelo Governo dos Açores. A solução é reforçar o esforço de promoção dos produtos lácteos açorianos no mercado nacional e marcar a diferença no mercado internacional pela qualidade e inovação dos produtos lácteos açorianos.

O que se tem visto é que a indústria (insistimos) não tem evidenciado arte e engenho para colocar os produtos lácteos açorianos, nas quantidades que estão a ser produzidas, no mercado, expandindo os mercados. Desde logo, porque os produtos continuam a ser qua-se só os mesmos, e porque não se faz o esforço de investimento necessário na promoção. Isto para que, quando se chegar ao fim-do-ano, os industriais distribuem lucros incríveis pelos seus associados.

Só que, mantendo-se as actuais circunstâncias, com milhões de euros de apoios a entrarem no bolso e a contentar os produtores (dinheiro que não se vai manter por tempo indeterminado), a verdade é que, com o miserável preço do leite que se paga e com menos produção, diminui o rendimento real dos produtores e o ciclo da vaca vai deixando de ter a dimensão que tem, actualmente, na Região…

Se hoje fosse lavrador, e gostasse do que fazia, olhava – nas actuais circunstâncias – para o dinheiro de Bruxelas como os milhões da minha sobrevivência momentânea porque estão a camuflar a falta de rendimento real da exploração agrícola. Isto porque em vez de servirem para modernizar a exploração (como devia acontecer), estão a ser utilizados para suster a exploração porque o cheque do leite (só por si) não chega ao fim do mês por o produto estar a ser mal pago e, ainda por cima, me pedirem para não produzir mais.

Nestas circunstâncias começo a perceber os produtores que incentivam os filhos a complementarem a exploração agrícola com outras actividades económicas com mais futuro, como o turismo. Ou, então, a mudarem de vida...

Embora entendamos que não se deve baixar os braços. E a produção tem de fazer um ‘forcing’  para obrigar toda a indústria, com o apoio do Governo dos Açores, a encontrar circuitos de comercialização para escoar todos os produtos lácteos produzidos na Região, com um preço justo do leite à produção sem neces-sidade de reduzir o leite produzido. Mas isso, amigos, infelizmente, é cada vez mais pedir o impossível! Quando é, de facto, possível.

João Paz- Correio dos Açores.

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