Indústria láctea açoriana aumenta a produção de queijo e diminui a de manteiga para ter menos leite em pó

Entre Janeiro e Agosto, as fábricas da Região produziram menos cerca de 500 toneladas de leite em pó do que em igual período de 2016, ano em que produziram 12.705 tonela-das. Em contrapartida, as fábricas de lacticínios dos Açores produziram entre Janeiro e Agosto deste ano 21.003 toneladas de queijo, o que representa um aumento de produção de cerca de duas mil toneladas face a igual período do ano passado.

Alguns industriais de lacticínios dos Açores, embora tenham colocado algumas tonela-das de manteiga em barra, a granel, no mer-cado internacional, num momento em que o preço estava alto, manifestam algum cuidado face à escassez de manteiga que se verifica, por exemplo, em França, onde o produto está esgotado em algumas prateleiras de grandes superfícies locais.

Este ano, a indústria láctea açoriana produziu mesmo, entre Janeiro e Agosto deste ano, menos 600 toneladas de manteiga do que igual período de 2016, ano em que, nos primeiros oito meses, tinha produzido 8.775 toneladas. Apesar deste decréscimo na produção, os preços da manteiga nas grandes superfícies comerciais açorianas tem-se mantido, embora os comerciantes deixassem de fazer promoções do produto.

Esta cautela da indústria de lacticínios dos Açores em conter a produção de manteiga tem a ver, sobretudo, com o facto de se ser produção ser uma produção de ‘pau de dois bicos’. Se, por um lado, o preço da manteiga no mercado internacional está elevado devido à sua escassez momentânea, em contrapartida, a sua produção obriga a produzir mais leite UHT meio gordo e, sobretudo, leite UHT magro, que não tem saída no mercado. Há fábricas que, ‘para aumentar a produção de manteiga, normalmente, produzem leite em pó magro de onde extraiu a nata necessária para a manteiga.

Só que, segundo as informações fornecidas ao Correio dos Açores por Jorge Costa Leite, responsável pela INSULAC, a União Europeia já adquiriu 380 mil toneladas de leite em pó magro a 1.700 euros a tonelada. Recentemente, a Comissão Europeia fechou a intervenção e, neste momento, o leite em pó magro está à volta de 1.500 euros a tonelada, sendo o produto lácteo de menor valor acrescentado no mercado.

Menos leite em pó e mais queijo

O Comissário da Agricultura, Phil Hogan, já anunciou, entretanto, que vai propor à Comissão Europeia que, no próximo ano, quando abrir a intervenção, ela seja pelo sistema de leilão para que a Comissão possa adquirir o leite em pó mais barato. Se esta proposta vingar, o preço do leite em pó magro terá a tendência para baixar. E, por mais cara que seja a manteiga no mercado internacional, dificilmente compensará a sua produção com leite em pó magro a preços demasiado baixos.

É todo este cenário na União Europeia que leva a indústria láctea açoriana a ter também um redobrado cuidado com a produção de leite em pó. De facto, entre Janeiro e Agosto, as fábricas da Região produziram menos cerca de 500 toneladas de leite em pó do que em igual período de 2016, ano em que produziram 12.705 toneladas de leite em pó.

Em contrapartida, as fábricas de lacticínios dos Açores produziram entre Janeiro e Agosto deste ano 21.003 toneladas de queijo, o que representa um aumento de produção de cerca de duas mil toneladas do que em igual período do ano passado.

Também é significativo que a indústria de lacticínios dos Açores tenha reduzido a produção de leite UHT de 99.120 mil litros no ano passado ,para 96.896 mil litros este ano.

Ou seja, pelos dados revelados pelo Serviço Regional de Estatística, a indústria de lacticínios dos Açores optou por produzir mais queijo nos primeiros oito meses deste ano, reduzindo a produção de manteiga, de natas, de leite em natureza e de leite em pó.

Curiosamente, além do queijo, apenas subiu de Janeiro a Agosto deste ano a produção de iogurtes, que passou, na Região, de 311 toneladas o ano passado para 347 toneladas, este ano.

Falta manteiga em França

A turbulência no sector leiteiro na União Europeia começou em 2015, aquando da abolição do sistema de cotas de leite, fazendo com que o mercado interno fosse inundado pelo produto, provocando uma forte queda nos pre-ços.

Segundo a Imprensa francesa, o barateamento do leite reduziu os preços da manteiga, fazendo com que o produto se tornasse me-nos atractivo para a indústria. Por outro lado, a produção aumentou, sobretudo no mercado externo.

Para contornar a crise, o Governo francês tenta cumprir a promessa de campanha de apoiar os fazendeiros nas negociações com a indústria de lacticínios por um preço do leite mais atractivo. Isto porque actualmente, tal como sucede com os industriais açorianos, em termos financeiros, é melhor produzir leite para o comércio ‘em natureza’ ou produzir queijo.

A semana passada, o Ministro da Agricultura e Alimentos, Stéphane Travert, informou ao Parlamento francês que fornecedores de leite e produtores de manteiga devem concordar com um ajuste nos preços.

É que, nas actuais circunstâncias, de falta de manteiga em França, os croissants franceses estão em risco e as gôndolas dos supermercados estão vazias e os tradicionais pães folhados estão se tornando mais raros e caros.

A crise foi provocada por um conjunto de factores que inclui a queda na produção de leite, combinada com baixas receitas do sector em 2016 e o aumento da procura global pelo produto. Este cenário forçou a alta dos preços, que subiram de 2,5 mil euros a tonelada em Abril do ano passado para 7 mil euros nos últimos meses no mercado internacional. Mas a tendência já é para uma baixa do preço da manteiga.

Mas, enquanto isso não aconteceu, Thierry Lucas, dono de uma padaria em Finistère, em França, teve que aumentar os preços dos croissants para bancar a alta no custo da man-teiga, que representa quase um quarto dos ingredientes do pãozinho. Até mesmo em regi-ões conhecidas pela produção de leite, como a Normandia, os supermercados estão com as prateleiras do produto vazias.

 

 

 

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