Fim da carne de vaca na Universidade de Coimbra

A UC não proibiu os seus estudantes de comer carne de vaca, o que podem perfeitamente ainda fazer nas suas casas ou em restaurantes, tendo-se limitado apenas a vedar esse alimento nas suas cantinas, decisão essa que foi motivada por um consenso existente ao nível dos principais comités científicos internacionais e entidades ambientalistas.

Se o objetivo foi colocar a sociedade a falar do assunto, o reitor da Universidade de Coimbra (UC) conseguiu-o, durante a cerimónia de receção aos estudantes do presente ano académico, ao anunciar que pretendia remover a carne de vaca do menu das cantinas universitárias a partir de Janeiro de 2020, defendendo a medida como um dos primeiros passos importantes para a UC alcançar a neutralidade carbónica até 2030.

O rebuliço social gerado poderá ser uma consequência inevitável de uma medida que confronta o status quo e mexe com a ordem das coisas, podendo inclusive desencadear uma discussão informativa e uma transformação positiva que é desejável, mas o desiderato de Amílcar Falcão, reitor da UC, será certamente ulterior e motivado por um elevado sentido de responsabilidade ética e social. Conforme refere num comunicado, está na altura dos líderes mundiais perceberem que as alterações climáticas são uma ameaça verdadeira e em causa está o “futuro do planeta e dos nossos jovens, dos nossos filhos e netos”. Talvez não seja uma medida que revolucione o mercado como o conhecemos, mas que, como argumenta o reitor, serve fundamentalmente para consciencializar as pessoas para a problemática. De longe a reacção mais interessante de analisar de todas será a da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), que em resposta à medida emitiu um comunicado a condenar a decisão, rotulando-a de “imposição” e acusando a reitoria da UC de infundado alarmismo. Mais, dizem-se também perplexos com a situação.

Perplexo fico eu, com o mal disfarçado conflito de interesses. Isto é quase como ler um comunicado da ANA (Aeroportos de Portugal) a anunciar que o Aeroporto do Montijo seria muito bom para o ambiente, em especial para a passarada que por lá anda, apesar do alerta em contrário lançado por várias organizações ambientais, ou ver a Fundação Berardo emitir uma declaração a defender a integridade do Sr. Joe Berardo, alegando que este não andou a apropriar fundos de ninguém e que a audição com a Comissão Parlamentar foi toda ela manipulada, como se fazia nos bons velhos tempos da URSS. Parece suspeito? Qual é a credibilidade de uma entidade que contesta uma medida que afectará negativamente as suas receitas financeiras? Zero. E Zero é também o nome da associação ambientalista ZERO (Associação Sistema Terrestre Sustentável), que em 2018 concluiu, num estudo pioneiro da pegada ecológica dos municípios portugueses, que a alimentação é o que mais contribui para esta pegada (em cerca de 30%), e ao nível da dieta dos portugueses o consumo de carne representa a maior pegada (23 a 28%). Comparativamente, o sector dos transportes em Portugal contribui com cerca de 19 a 23% da pegada dos portugueses. Por isso talvez o senhor reitor da Universidade de Coimbra tenha farejado aqui alguma coisa que faz sentido: a mudança tem que começar no prato também. E quem perde tempo a vasculhar a vida privada do reitor para ver se conduz um carro movido a combustíveis fósseis, não estará a ignorar a possibilidade de se poder fazer ainda maior diferença com o nosso carrinho de compras?

Mas a CAP ainda foi mais longe e considerou que a medida é “imponderada”, “infundada” e baseada em “alarmismos incompreensíveis”. Quais relatórios da FAO (Nações Unidas) ou do IPCC que alertam para a necessidade global de reduzir drasticamente o consumo de carne, em particular da carne vermelha, como medida prioritária para travar as alterações climáticas e evitar atingir um ponto de não-retorno em 2030. E quem é que está para ouvir de especialistas da Comissão EAT, da revista científica Lancet, que afirmam que só conseguiremos alimentar 10 mil milhões de pessoas em 2050 se baixarmos o consumo de carne vermelha em pelo menos metade e duplicarmos o consumo de legumes? Ou quem é que acredita em estudos publicados na revista Science que ecoam o que já foi dito antes?

Isso é que não! Bando de alarmistas que esta gente é! Não é com base em relatórios científicos e comités independentes de especialistas em ciências do ambiente que devemos desenvolver as políticas públicas do ambiente, mas sim com base na opinião dos senhores que criam as vaquinhas e as matam para poder fazer muito tostão com o bifinho. Em parte, é de facto incompreensível a falta de honestidade e a servidão aos interesses financeiros em detrimento dos interesses das gerações vindouras. Ou talvez não seja assim tão incompreensível porque efetivamente é de esperar esta reação de um sector frágil e que pode ficar economicamente debilitado caso outras instituições decidam seguir o mesmo trajeto.

 

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