Exportação é o caminho a seguir para futuro da agricultura

Exportação é o caminho a seguir para futuro da agricultura

Ponta Delgada, 9 de Setembro de 2013

 

O sector agrícola é visto como um vector de desenvolvimento nacional e regional e o Presidente Executivo do Banco Espírito Santo dos Açores, Ricardo Salgado, entende que a aposta na diversificação para produtos inovadores e de maior valor acrescentado, juntamente com o aumento das exportações e o reforço da internacionalização das empresas do sector pode ser uma oportunidade de crescimento do sector que é o de maior peso na economia regional.

Ricardo Salgado falava em Ponta Delgada na conferência “agricultura sinónimo de desenvolvimento”, organizada pelo BES dos Açores em parceria com o jornal “Correio dos Açores” e com a Associação Agrícola de São Miguel, onde salientou o leite, a carne, as frutas, as flores, e os derivados do leite como os melhores produtos que podem trazer valor acrescentado à região.

Os “eixos de oportunidade do sector” apontam para produtos onde a região tem vantagens comparativas e competitivas, dando especial atenção à qualidade dos produtos “oriunda do modo de produção tradicional”, utilizando a certificação como “elemento diferenciador”, salientou o presidente do BES apontando na área das flores as proteas, o leite, a carne, o queijo do Pico e São Jorge, o ananás e o maracujá de São Miguel e o mel dos Açores como expoentes máximos destes eixos.

Ricardo Salgado apontou ainda oportunidades de exportação, referindo que as comunidades portuguesas no exterior e os países de língua portuguesa são “importantes activos” ao dispor dos empresários portugueses já que “3,7% da população mundial fala português e estas comunidades representam 4,2% do PIB mundial”.

Mas também os turistas podem ser importantes quando se trata de dar a conhecer os produtos regionais. Neste sentido, a aposta deve ser “em mercados onde os produtos já são reconhecidos” e apresentou os “5 destinos top” como oportunidades de exportação, nomeadamente Alemanha e Holanda, para a carne de vaca fresca, Estados Unidos da América, Holanda e Angola, para a carne de vaca congelada, Alemanha e Holanda para o leite e nata, e Alemanha e Suécia para o queijo.

O presidente executivo do BES salientou, por fim, que o banco “tomou um posicionamento de liderança de apoio ao sector e seus actores”, tendo entre outras medidas criado as soluções BES Agricultura.

“Leite não tem mais espaço para crescer”

Para falar sobre “os desafios que se colocam à agricultura açoriana” Jorge Rita, Presidente da Federação Agrícola dos Açores e da Associação Agrícola de São Miguel (AASM), contextualizou a crise que se vive a nível nacional, europeu e mundial e mostrou-se convicto que a agricultura “pode e deve dar um contributo muito positivo para que se recupere dessa situação dramática que se vive actualmente”. Quanto a desafios propriamente ditos, a nível regional, prendem-se com a reforma da Política Agrícola Comum (PAC), com o novo envelope financeiro do POSEI, o próximo Quadro Comunitário de Apoio e a reestruturação contínua do sector. Jorge Rita salientou que a nível regional o sector agrícola “foi o que mais cresceu” e por isso referiu que “voltar à agricultura é quase uma obrigação nacional e regional” de forma transversal referindo que o leite é o que representa quase 70% em termos agrícolas em São Miguel. Por isso apelou à indústria para que continue a criar produtos que tragam mais valor acrescentado, não esquecendo de apelar ao Governo Regional que melhore as infraestruturas para que a qualidade seja a excelência dos Açores.

Considerando que “o leite até pode crescer, mas não tem muito mais espaço para crescer”, Jorge Rita salientou a importância da carne e da diversificação no sentido de crescimento. Para além da qualidade, não se deve descurar a formação e “um bom acompanhamento técnico” para que todas as áreas de produção atinjam a excelência, foi o desafio deixado por Jorge Rita que salientou que “temos uma União Europeia que tradicionalmente não gosta de agricultura e que prejudicou claramente a agricultura na União Europeia” mas acredita que ainda se vai a tempo de “remediar” algumas situações.

As negociações da reforma da PAC, como a abolição das quotas leiteiras, “não são as melhores” já que o país e a região “vão ser dos mais prejudicados no futuro em relação à abolição das quotas leiteiras”, são as preocupações do sector.

“Produzir tornou-se caro”
O presidente do Conselho de Administração da Insulac, Jorge Costa Leite, debruçou-se sobre “a importância e desafios que se colocam à indústria de lacticínios nos Açores”, referindo que a percentagem de leite dos Açores no total nacional tem vindo a aumentar “porque a produção nacional tem vindo a diminuir devido ao abandono” do sector. A região está por isso a aproximar-se de ser responsável por produzir 1 terço do leite nacional.

Falando também sobre o regime de quotas leiteiras, Jorge Costa Leite referiu que “quase todos os países estão a produzir abaixo da sua quota” porque há um grande abandono da actividade e, falando concretamente de Portugal continental, disse que “produzir tornou-se demasiado caro, daí que Portugal tenha produzido menos 9% do que a sua quota na campanha 2011/2012”.

O presidente do Conselho de Administração da Insulac referiu que os países que têm grande aptidão para produzir leite e que “agora têm estado controlados porque têm quotas”, mas assim que seja decretada a abolição do sistema acredita que estes países poderão suplantar os países que agora não conseguem cumprir a quota atribuída.

Em jeito de desafios à fileira do leite, Jorge Costa Leite defendeu a reserva agrícola, a diminuição da dependência de cereais importados, aprendendo a trabalhar num mercado sem quotas e o investimento na marca “lacticínios dos Açores”.

“Universidade deve ajudar”
“A modernização agrícola e as exportações. Instrumentos de apoio a estes desafios” foi o tema abordado pelo presidente executivo do BES dos Açores, Gualter Furtado que referiu que “o maior desafio que se coloca à sociedade açoriana é termos condições para aumentar as exportações”. Neste sentido salientou que 80% das exportações de produtos açorianos são conservas, peixe fresco e lacticínios. Mas as exportações dos Açores “são ridículas”, disse Gualter Furtado que salientou que apenas 89 empresas dos Açores exportam para o estrangeiro, o que representa 0,3% do PIB nacional e 30% do PIB regional.

Gualter Furtado destacou que “há que concentrar esforços na substituição de importação de produção agrícola” e apostar nessa secção, mas destacando que deve haver interacção entre turismo, agricultura e pecuária.

Apelando a que é necessário “muito trabalho de casa a fazer por políticos nacionais e regionais”, para se exportar para países com grande afinidade com os Açores e com Portugal. Exemplo disso são as comunidades no Canadá e Estados Unidos onde as principais figuras políticas nacionais “não vão há mais de 15 e 20 anos”.

Também a Universidade dos Açores deve ajudar o sector primário a melhorar, acredita Gualter Furtado que salientou a situação financeira precária por que passa a academia açoriana. “O Governo não deve dar dinheiro sem contrapartidas” e, por isso, sugeriu que os vários departamentos se colocassem ao dispor do Governo para ajudar a economia regional e por isso seriam compensados, ajudando assim a Universidade a ultrapassar um período difícil.

“Defesa intransigente”

O Secretário Regional dos Recursos Naturais, Luís Neto Viveiros, assegurou por seu lado uma “defesa intransigente” da agricultura e dos agricultores açorianos nas negociações da PAC. Luís Neto Viveiros falou sobre o Período de programação de 2014-2020 que está em preparação e lembrou o “acordo de entendimento” alcançado quanto ao pacote da reforma da PAC que visa “um incremento das ajudas aos jovens agricultores, às organizações de agricultores e maior relevância nas políticas de protecção do ambiente”.

Quanto à redução do orçamento da PAC, o Secretário Regional disse que o governo “tudo fará para assegurar uma afectação financeira de valor idêntico ao do período de programação que agora termina”. Para a região também importa assegurar a continuidade do POSEI-Agricultura, “que estabelece medidas específicas no domínio da agricultura a favor das regiões ultraperiféricas” e que tem uma taxa de execução de praticamente 100% nos Açores, “além dos pagamentos directos aos agricultores, consagra um conjunto mais amplo de medidas a favor das produções locais, as quais têm abrangido uma multiplicidade de produtos, incluindo medidas de apoio não só à produção, como também à sua comercialização e transformação”, concluiu Luís Neto Viveiros.

O Director do “Correio dos Açores”, Américo Natalino Viveiros, apresentou as conclusões da conferência onde referiu que sendo a agricultura um sector estratégico no caso dos Açores “poderá ser determinante na resolução do grave problema demográfico com que muitas ilhas estão confrontadas, pelo envelhecimento da população e pelo abandono da propriedade rural”. Um problema que “terá de ser encarado de frente” quer por associações, empresários, governo e os próprios agricultores.

FONTE:
Correio dos Açores

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