EDUARDO BETTENCOURT MEDEIROS

Eduardo Medeiros é um agricultor com 44 anos, Eng. de Produção Animal, que tem tem diversificado e inovado no setor agrícola. Destacam-se as produções de ananás,leite, porcos, cavalos e ultimamente apostou na produção de germinados para os seus animais. Não esconde a satisfação e mostra-se orgulhoso com os primeiros resultados deste processo de alimentação.
A sua exploração de leite está localizada nas Furnas e Povoação. Num total, explora 97,5 hectares (700 alqueires), dos quais 13,93 ha nas Furnas (100 alqueires) onde tem 28 vacas leiteiras e 83,57 ha na Povoação (600 alqueires), com 90 vacas. O seu objetivo é chegar aos 50 animais nas Furnas e 110 a 120 na Povoação, com a produção de alimentos próprios.

 

Tem dois assentos de lavoura, um na Povoação e outro nas Furnas, sempre foi assim? Não. Inicialmente nas Furnas era um viteleiro e a pastagem servia apenas para aguentar os animais maiores e que precisavam
engordar um pouco para embarque. Há quatro/cinco anos, o negócio do vitelo tinha morrido, não era compensatório e acabámos com essa atividade. Criávamos cerca de dois mil por ano e tínhamos sempre em permanência mil animais. Não querendo abandonar o terreno, e como já tínhamos uma lavoura na Povoação, montámos uma lavoura nas Furnas.
Neste momento está mais apelativo o negócio do leite ou da carne? O leite tem uma vantagem, sabemos que vamos receber e quanto vamos receber. Na carne, hoje o negócio está bom, amanhã não sei… o preço da carne nem sempre dá para os custos de criação!

Os subsídios acabam por ser o nosso lucro, mas estamos limitados a 25 ou a 90 no caso de termos terra suficiente e para o nosso tamanho não compensa.

As vacas estão separadas com que critério?
Inicialmente todos os animais com defeitos e mais velhos transitavam da Povoação para as Furnas. Neste momento já começámos a criar também nas Furnas.

As mais velhas vinham para cá para não as sujeitar a deslocações entre parcelas, de três em três semanas os animais passam da Lomba do Loução para o Labaçal. Evitam-se assim mamites nos
animais mais sujeitos a esses problemas das mudanças, os mais velhos ou com o úbere maior.
Tem recebido o “PRÉMIO PRODUTOR EXCELENTE” todos os anos, é difícil atingir esse patamar?

Há épocas que são complicadas. Para conseguir ter os nove pontos é necessário muito trabalho e também temos de inutilizar uma quantidade razoável de leite.
O seu sistema de ordenha é todo móvel? Sim, por enquanto. Mas já está em construção uma ordenha fixa
aqui nas Furnas.
Tem várias atividades agrícolas, vacas, porcos, cavalos, aventurou-se nos germinados e tem ananás. Qual a atividade que mais prazer lhe dá?
Os cavalos. Infelizmente não dão rendimento. A seguir, as vacas.
Os porcos, são para carne? Não, o meu tipo de negócio é diferente eu vendo porcos para criação.
É bom negócio? Era até há 6 ou 7 meses atrás. As pessoas que levavam 3 leitões para engordar, agora levam 1.
Tem muita área de ananás? Onze estufas. Acha que é cultura com ou sem futuro? Sem futuro. Posso-lhe dizer que estamos em finais de Julho e ainda não recebi o dinheiro da fruta do natal. A cultura de ananás não
dá. Para nós, o ananás existe porque é uma coisa de família. Veio do meu avô e as estufas localizam-se onde era a casa dele, agora a minha. O objetivo de manter os ananases é para não abandonar
o prédio e não gastar dinheiro na manutenção do terreno. Com o ananás consigo manter o prédio em condições. Não dá lucro.

Além de não receber, o que é que acha mais problemático nessa cultura? A pressão urbanística?
A pressão urbanística é a razão pela qual só temos onze e não trinta estufas. Tínhamos estufas na zona do Ramalho em Ponta delgada, mas tornaram-se apetecíveis para a construção civil e tivemos que largar os terrenos. As outras estufas têm história na
família e optámos por as ir mantendo.
Contudo, há outras coisas que talvez se pudessem fazer. Anti-gamente utilizavam-se leivas na cultura e agora como sabemos não se pode, sei que há experiências feitas com outros mate-riais, mas até hoje não deram resultados palpáveis.
Fez experiências com germinados por sua conta. Certamente não haverá investigação e experimentação nessa área em S. Miguel, com o ananás sente o mesmo?
Não temos apoio, mas no ananás também nunca nos propusemos a fazer experiências com ninguém.
Acredito que há necessidade de haver alguma investigação e tentar alterar alguma coisa. A questão das leivas é uma delas. Lembro- me das estufas feitas com leiva e que obtinham produções
belíssimas quase sem problemas. Hoje em dia, com estrume não resulta e com a utilização dos adubos é preciso ter muito cuidado, para não se utilizar fora da época e sem excessos, senão o fruto não tem qualidade.
Muita gente não se interessa com a qualidade mas sim com o peso. Não é a minha filosofia, pois gosto de entregar o fruto com qualidade e não tenho tido dificuldade em escoar o produto.
Fazer como antigamente, utilizando tratores com correntes e arrancar totalmente a leiva do monte, é claro que não, mas retirando parcialmente ou às tiras para que esta se consiga desenvolver, não estaríamos a prejudicar o ambiente.
E em relação ao preço?

Compreendo perfeitamente que quem não está ligado aos Açores, ou até mesmo um açoriano que não esteja ligado às estufas, prefira ir ao supermercado pagar o abacaxi a um euro o quilo, do que ananás a dois euros e meio. Não sei como é que eles conseguem colocar o abacaxi aquele preço cá…
Existe divulgação suficiente do ananás dos Açores?
Antigamente mandávamos ananás de batelão para Inglaterra. Hoje em dia temos câmaras frigoríficas, temos barcos que em dois dias estão em Lisboa e em três em Inglaterra e porque é que não usamos esse mercado? Tenho fotografias do princípio do século passado do mercado de Londres em que existia uma área enorme só com ananás dos Açores. Porque é que não se consegue mandar ananás para a Europa?

Relativamente ao turismo, às vezes vemos nos restaurantes locais a servirem abacaxi. Acha que podia ser feito alguma coisa?

Como no ananás, temos outros casos. Na festa do Sr. Santo Cristo, que é a nossa maior festa, pode passar por todas as barraquinhas com um amigo continental, americano ou sueco e quer mostrar lhe produtos regionais, uma Kima, uma Laranjada, uma Especial, e não há, não têm.

Acha que é falta de competição de preços ou não sabemos proteger aquilo que é nosso?

Não sabemos proteger aquilo que é nosso e a concorrência nos refrigerantes e nas cervejas é grande, a nossa fábrica não consegue nem sabe acompanhar essa concorrência.

Relativamente aos germinados, pode-nos explicar o que são?

A própria palavra o diz. Através de uma semente de preferência cereal, embora também possa ser feito com proteaginosas ou  oleaginosas, fazemos a primeira germinação, ou seja, até ao aparecimento da radícula e de folha. É um processo muito rápido, demorando normalmente sete dias até ser dado aos animais.

Como é feito o processo?

O processo é extremamente simples. Inicialmente a semente é desinfetada por dez, quinze minutos com água e cloro, depois passa exatamente vinte e quatro horas em água, seguindo-se mais vinte e quatro horas num cesto aberto, onde a semente possa respirar mas tapada e no escuro. Depois disso, é colocada em tabuleiros fazendo duas camadas de semente. Não se deve colocar mais do que duas camadas pois é desperdício, e menos que isso, as raízes não têm facilidade em se entrelaçarem. Diariamente faço três regas de uma hora cada, com o objetivo de manter a semente sempre molhada. Ao segundo dia aparece a plântula e no terceiro dia a folha.

Como é que começou com os germinados?

Quando acabei a universidade em 1994, já tinha ouvido falar sobre isso e fiz uma experiência em casa para ver como era e correu bem. Nessa altura quem tomava conta das explorações era o meu pai, que achou um processo muito caro, e decidiu não fazer porque dava muito trabalho. Há dois anos, tivemos uma seca grande e não tínhamos comida. Quis comprar comida mas estava caríssima, pedia-se 70 e 80€ por um rolo de feno silagem e tive que arranjar outra solução. Por acaso, ao ler a revista Ruminantes, vi um senhor do Alentejo que fazia germinados para cabras e lembrei me novamente. Melhor que em 1994, resolvi pesquisar na internet e encontrei alguns trabalhos das Universidades de São Paulo, da estadual – UNESP e da pública – USP, e da Universidade do México. Foram os três sítios que encontrei os trabalhos melhores e mais elaborados. Como tenho a facilidade de ter duas lavouras, uma grande e uma pequena, utilizei a pequena pois era mais fácil para experimentar. Comecei no verão ao ar livre, no meio da terra e os resultados foram satisfatórios apesar dos problemas com pássaros.

Como tínhamos as instala-ções dos viteleiros vazias, fizemos tabuleiros à medida para os parques dos vitelos existentes e passei a utilizar tudo dentro do viteleiro.

Que vantagens encontrou nesse processo?

Ao germinar a semente não estamos a ganhar nada na parte nutritiva base, nas unidades forrageiras ou na proteína, essas unidades mantêm-se iguais ou ligeiramente mais baixas, mas ganhámos nas vitaminas e nos minerais, sendo o aumento aí muito grande. A grande vantagem é que numa ração ou num cereal que se dê moído, a digestibilidade é à volta dos vinte por cento, nos germinados é de oitenta por cento. Ou seja, usando os mesmos quilos
de matéria seca do mesmo produto, estamos a quadruplicar, ou pelo menos a triplicar o aproveitamento para o animal.

E relativamente às desvantagens?

É um processo que dá muito trabalho, necessita de muita mão-de-obra e é preciso ter muito cuidado com fungos. Muitas vezes por excesso de água ou falta dela, proporciona-se o aparecimento de peque-nos fungos, especialmente nas raízes, e estes são prejudiciais para o rúmen dos animais. Se aparecerem muitos fungos, deve-se eliminar essa parte e não dar aos animais.

Porque trabalha só com uma matéria-prima e não várias? Porque é que não faz milho?

Atualmente estamos a utilizar trigo, a cevada é muito melhor e já experimentei o milho que existe no mercado para fazer farinha mas não tem sementes suficientes que germinem. Quando escolho uma semente eu não compro grandes quantidades.

Primeiro  peço uma amostra, faço o teste em casa contando as sementes e tenho que ter oitenta a oitenta e cinco por cento de germinação para comprar essa semente.

A germinação no milho é muito baixa, até cheguei a fazer uma experiência diferente, fazer milho até aos vinte dias, faz-se muito no Brasil. Experimentei lá e dava certo, mas cá o nosso milho não germina, não deu certo. O processo consistia em formar uma cama de palha moída, espalhando-se o milho por cima, tapandose com uma camada fina de palha e rega-se durante vinte dias, com ou sem adubos. Eu aconselho a pôr os adubos. Começámos a ter uma produção muito maior, por cada quilo de milho conseguimos vinte a trinta quilos de forragem, mas o nosso milho cá não germina. Se nós tivéssemos a hipótese de ter milho que fosse plantado, colhido e guardado cá, teríamos quantidade suficiente.

E o milho regional seria uma opção, mas para já não encontro quantidade suficiente que justifique fazer isso e não podemos parar pois os animais tem uma rotina de alimentação que não se pode trocar.

A nível da produção das vacas, viu alterações a partir do momento que começou a utilizar os germinados?

Vi alterações mas não posso garantir que sejam totalmente derivadas dos germinados. A grande alteração que vi, foi que as vacas estavam a comer mal por falta de comida e passaram a ter. Penso que tivemos um aumento de dez por cento de produção devido aos germinados, mas houve a consequência de baixar o nível de gordura, pois têm pouca matéria seca e não têm fibra.

E os açúcares mantêm-se ou a planta vai utilizar os açúcares no período de germinação?

A planta utiliza os açúcares mas transforma em folha. E o ani-mal come tudo, a folha, a raiz e a semente. É totalmente apro-veitável.

E a nível de fertilidade?

A nível de fertilidade não notámos grande diferença. Nos estudos que referi, consideram que existe um aumento de vinte por cento na fertilidade.

Quais são os investimentos que são necessários para fazer hidroponia?

Não são nada do outro mundo. Tenho tabuleiros de madeira forrados com plástico com um sistema de microrrega em cima. Comecei com gotejamento mas passei para microrrega pois distribui melhor a água. Tive um investimento muito baixo.

Se não tivesse água própria, seria viável?

Era viável. Porque é possível fazer a recirculação de água e, portanto, os gastos de água são muito baixos.

Nunca pensou fazer adição de fertilizantes e fechar o circuito?

Não. Penso que o germinado até aos sete dias não vai aproveitar em nada os fertilizantes.

tipo de alimento?

Nos dois primeiros dias as vacas estranham porque não sabem o que é, até porque não sabem como comer, pois os germinado fazem uma rede tão grande nas raízes, fica como uma placa e necessitamos de cortar em bocados mais pequenos. Muitas vezes os bocados ainda são muito grandes e a vaca necessita de dois a três dias a aprender a comer.

Qual é a quantidade que dá por animal?

Neste momento dou um quilo e meio de semente por animal, que dá dez quilos de forragem verde.

Essa introdução fez de forma gradual ou brusca?

Foi brusca. Porque quando comecei, não tinha comida.

Tinha dito que era difícil conseguir semente com taxas germinativas altas. É fácil obter grão integral?

Não tenho tido dificuldade. Costumo comprar à Finançor em Ponta Delgada. Durante uns tempos a Associação Agrícola é que me fornecia cevada, mas deixaram de ter cevada, têm centeio. Entre o centeio e o trigo, prefiro o trigo pela facilidade de germinação.

Visto que tem outras áreas e também se usam germinados em várias espécies, já utilizou noutros animais?

Quando introduzi os germinados nas vacas, antes tinha experimentado nos cavalos.

Recomendaria este sistema a outros produtores?
Sim. Neste momento há mais um rapaz que começou, nas Furnas também para cavalos.

E os cavalos deram-se bem com os germinados? Têm problemas de cólicas?
Tenho cavalos há dois anos a comerem só germinados e meio quilo de palha por dia. Não têm problemas de cólicas porque o animal tem de mastigar, enquanto no cereal em grão o animal não o aproveita, entra na boca e sai nas fezes. O cereal moído poderá dar cólicas e hiperqueratose no estômago e nos germinados não existem esses problemas.
Podem dar à vontade aos cavalos e podem comer em excesso, que não levantam problemas. Também está um pouco em moda os germinados na alimentação humana. Também o faz para si?
Não. Já ouvi falar, mais ainda não experimentei.

Muitos produtores não têm condições para a cultura de milho, por não terem área, ou porque os terrenos não são os mais adequados. Acha que esse sistema seria bom nessas condições?
Penso que a utilização de forragem hidropónica vem colmatar as falhas para quem não tem possibilidade de fazer silagens. Existe também uma habituação excessiva das silagens de milho. Existem

outras culturas já experimentei luzerna e ainda não encontrei uma variedade que me sirva.

Existem apoios para a produção de milho com o objetivo de diminuir a dependência de cereais do exterior, acha que também deveria ter apoios para este tipo de produção?

Na prática acabamos por ter um subsídio indireto, porque precisamos da semente para fazer a hidroponia, e na semente temos subsidiado o transporte através do POSEI.

Vê isso refletido em si?
Sim. O preço do cereal cá é o mesmo do que no Continente. Pela falta de cevada que há nos Açores, cheguei a entrar em contacto com alguns produtores e distribuidores de cevada no Continente e o preço é o mesmo, mas como não tenho o subsídio, depois tenho de pagar o transporte por minha conta. Os subsídios ao transporte estão efetivamente a manter os cereais aos mesmos preços do que o Continente. Já que se fala nisso, também pergunto, com os nossos cereais aos preços do Continente, porque é que a nossa ração não é ao mesmo preço do que a do Continente? O preço da ração no Continente é um bocado mais barata. Durante muitos anos consumi Purina. Fui eu que trouxe a Purina para cá, e quando fui para o Brasil entreguei a marca a um rapaz amigo e o meu pai optou por deixar de gastar Purina. Mas eu preferia trazer a Purina do Continente, mesmo ligeiramente mais cara, chegava cá, com transportes, com uma diferença pequena, e notava a diferença.

A qualidade das rações não é a que deveria ser?
Hoje em dia, já temos uma boa qualidade de rações, ou pelo menos razoável, por vezes não a sabemos é aplicar, e os pró-prios vendedores de ração como têm de mostrar números, acabam por não indicar a ração mais correta para determinada situação. No meu caso, uso a cevada e o trigo, tenho um apro-veitamento proteico e energético bem maior na alimentação dos animais, portanto eu permito-me utilizar uma ração com nível proteico mais baixo. Mas os vendedores continuam a insistir que utilize uma ração alta em valor proteico, quando uma mais baixa dá aquilo que quero, e a diferença de preço é grande. A maior parte das pessoas aceita os conselhos dos vendedores, sem se questionar sobre a validade desses conselhos…

 

Como disse já esteve no Brasil, um país muito diferente e com outra dimensão, como surgiu a oportunidade de ir para lá e como foi essa experiência?
A oportunidade de ir para o Brasil começou por ser para des-cansar. Na altura, tomava conta das estufas, das vacas, dos viteleiros que ainda existiam, de uma rent-a-car, das rações e dos coelhos. Como estava a trabalhar em áreas tão diferentes e com horários tão distintos, tinha o telemóvel a tocar às seis da manhã, para as vacas, à meia-noite para o aeroporto…, já estava bem cansado.
E para conseguir mesmo parar, resolvi comprar uma fazenda no Brasil e ir para lá.

 

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