Eng. Renato Cordeiro
AJAM/CJA
Introdução
Em 2011, de forma a continuar o plano de rotação de culturas em Santana, a Cooperativa Juventude Agrícola, optou por fazer 6 hectares de beterraba. Para isso foi contactado o Eng.º João Teves, técnico responsável da Sinaga, onde se tratou das análises de terra e a forma como
nós pretendíamos fazer esta cultura, baseando-nos na literatura existente e na experiência de alguns agricultores.
Ficou assim decido fazer um ensaio com algumas das marcas comercializadas em S. Miguel, com o objectivo de todos
os intervenientes terem um maior contacto e conhecimento desta cultura, para também conseguirem dar um maior
aconselhamento técnico no terreno. Foram contactados os seguintes:
- Pela Interadubo S. A. o Eng.º Rui Fernandes
- Pela ADP o Eng.º João Rodrigues
- Pela TIMAC o Eng.º João Vasco Pedro
- Pela Fertinagro o Eng.º Roberto Oliveira.
Cada um fez a sua proposta de fertilização, o que foi analisado pela CJA, acertando para as quantidades e número de aplicações, havendo um equilíbrio entre as unidades de fertilização. A sua cooperação foi determinante para a evolução da cultura, assim como a detecção de algumas carências ou doenças. Os seis hectares foram divididos em 4 parcelas de 1,1 hectare para cada ensaio ficando os restantes 1,6 hectares como controle.

Procedimentos
Plano de cultura realizado em Santana:
1- Aplicação de um herbicida total (4Ltrs/hectare)
2- Duas passagens com a grade de discos
3- Lavoura feita com a charrua
4- Fresagem pouco profunda
5- Aplicação dos adubos de fundo:
ADP-1400 kg/hect de Amicote 8-12-12
TImac- 1000 kg/hect de D-Coder 10-15-10
Interadubo- 1000kg/hect de 6-10-16
Fertinagro- 900 kg/hect de Bi-Acimar 9-14-5 (s)
6- Gradagem com o rototerra, cobrindo assim os fertilizantes e deixando uma boa cama para a sementeira
7- Sementeira a 3 de Março. A Timac, utilizou 25 kg/hectare de um micro granulado (Phisiostart 14-28-0), o que se veio a mostrar uma boa opção, principalmente em solos com deficiências em fósforo.
8- No dia seguinte à sementeira, aplicação de herbicidas e pesticidas, o que se repetiu 3 semanas a seguir, devido ao surgimento de algumas infestantes.
9- Em meados de Abril, foi aplicado um fungicida e da ADP, o adubo foliar Tecnifol Boro
10- A 29 de Abril – Aplicação de fungicida e foliares:
ADP - Profertil 5L/Hect. ;
Fertinagro - AminoBoro 5 L7Hect. + Fertafol Phoszinc 15l/hect ;
Interadubo – (10-7-4 6) L/hect;
11- A 03 de Maio – Sacha e aplicação de fertilizantes:
ADP- Fertiject 22 – 350 kg/ha
Timac - 10-15-10- 650 kg/ha
Fertinagro - 10-10-17 – 650 kg/ha
Interadubo - Fertamid 33 – 240 kg/ha
12- A 11 de Maio – Aplicação de Eurofit Max no ensaio da TIMAC;
13- A 23 de Maio – Aparecimento de podridão nas plantas de beterraba, doença conhecida por “pé-negro”, sendo a solução para o problema um fungicida do grupo químico Ditiocarbamato, usando-se o Pomarsol (200 gr) numa dose de 800 gr por hectare;
14- Em 18 de Junho – Aplicação de adubo foliar no ensaio da Fertinagro;
15- A 22 de Junho – Aplicação de Pesticida;
16- Colheita da beterraba de 18 a 24 de Agosto.
Resultados
Após a colheita, a produção total do ensaio foi de 275,298 toneladas de beterraba já limpa, o que deu em média 45.88 toneladas por hectare, com uma média de polarização na ordem dos 19,40 %. Lembrando que foi um mau ano agrícola, contrastando com a média das outras
beterrabas feitas na ilha, com produções de 26 toneladas por hectare com uma polarização de 16 %, este ensaio veio mostrar que mais se pode fazer nesta actividade. Todos os participantes deste ensaio obtiveram assim um melhor conhecimento da cultura, conseguindo mais um contributo no aconselhamento de quem assim decidir fazer esta cultura por sua vontade e dedicação. Em Santana, não se obteve a maior produção da campanha, mas foi com certeza inserida num “grupo” de bons produtores já com
experiência, que também têm mostrado excelentes produções ao longo dos anos, sendo também agora prejudicados com esta medida do aluguer dos terrenos. Feitas as contas, pode se dizer que deu lucro na ordem dos 50 %, o que em qualquer cultura (como a alface, pepino ou tomates…), logo que o produtor tenha empenho e
dedicação, o objectivo será sempre o lucro, e não apenas o seu, também de todos os intervenientes no sector.
Discussão
No início de uma nova campanha, que conselhos
ficam deste ensaio:
a) Se possível, fazer “Outono” e aplicar
estrume nos terrenos,
b) Preparar bem o solo, com uma lavoura funda não o compactando muito, deixando uma boa cama para a
semente. Aplicar herbicidas pré emergentes,
c) Segundo as análises aplicar uma boa adubação de fundo, não indo na teoria que a terra tem fósforo e potássio suficiente, pois podem estar retidos pelo valor de pH, sendo conveniente a sua aplicação antes da sementeira em adubação de fundo. Usar micro granulado se possível e em solos de valores médios a baixos de fósforo,
d) Aplicação de fungicidas, principalmente do grupo químico Ditiocarbamato ou Tirame, no tratamento do “Pé
Negro”, doença por nós detectada e pouco conhecida, com uma prevenção relativamente barata,
e) A sacha com adubação deu um reforço de nutrientes, não só em azoto, como também em cálcio, magnésio e
boro. Estes são determinantes para o desenvolvimento da planta nesta fase, assim como evita certas doenças
a nível da raiz, dando em simultâneo um arejamento desejável,
f) A aplicação de fertilizantes líquidos, junto com os pesticidas e/ou fungicidas, é uma prática de maior
rendimento, corrigindo falhas na fertilização ou optimizando esta.
A beterraba, nunca foi uma cultura inimiga da produção de leite, mas com uma política usada no aluguer de terra a 400 € o alqueire sendo agora aumentada para 510 €, mostra ser um atentado ao bom relacionamento no sector agrícola. Criou-se um desconforto entre senhorio e rendeiro, que não só atingiu a produção de leite, como os bons produtores de beterraba e de outras culturas se vêm nas mãos dos seus senhorios. Qualquer cultura, onde o agricultor deixe o seu suor sobre a terra, tem como fim o seu rendimento e dignidade, o que é contrário a uma medida de receber para não se preocupar, tendo produções ridículas e pagas todas ao mesmo preço. Não se importando com a cultura, o agricultor perde dignidade,
e em questão de rendimento, acredito que a médio prazo resultará no prejuízo da Sinaga e de todos os que com ela trabalham. Houve terrenos cultivados com esta medida, que nem a colheita se fez, pois seria inconcebível, mas foram pagos da mesma maneira. Criou-se o rendimento mínimo de inserção para os proprietários de terrenos agrícolas. Sabendo haver a intenção de constituir um clube de produtores, dando uma quantidade de produção e polarização a atingir, até acho uma ideia interessante, talvez motivadora, mas continuando com uma medida anti-produtiva como esta, já se criou um clube de malandros, onde se começa a trilhar o fim de uma cultura industrial, que em tempos foi marcante no desenvolvimento da nossa ilha.
AGRADECIMENTOS

