“É preciso que se perceba que Agricultura está na génese das pessoas, que vivem nos Açores e que são dos Açores. É bom que se diga isso a outros que cá estão. A Agricultura está na nossa génese. Nós gostamos de trabalhar e gostamos de criar. E quem está na Agricultura, cria. E quem cria nunca abdica. Não é só uma questão económica, não é só uma questão financeira. É uma questão que está enraizada em nós e que está no nosso ADN. Portanto, A agricultura nos Açores e o sector leiteiro, os ciclos não passam por aqui”.
As palavras do Presidente da Federação Agrícola dos Açores, Jorge Rita, saem em catadupa. Falava no Fórum ‘Conversas de Agricultura’, organizado pela ‘Agrogarante’, em Ponta Delgada, perante uma plateia constituída, sobretudo, por banqueiros e empresários.
Jorge Rita admitiu, ele próprio, que estava a ter um discurso diferente do que é habitual. “Este discurso não é o normal. Este discurso é diferente hoje. Portanto, o desafio para o sector leiteiro na Região Autónoma dos Açores não é para terminar, é para continuar de forma sustentável e com a valorização do produto acrescentado”, sublinhou.
Os bancos sabem qual o verdadeiro peso do sector agrícola
Jorge Rita aponta, depois, o dedo aos responsáveis bancários presentes: “Temos demonstrado, ao longo destes anos, a nossa resistência e a nossa resiliência e a banca sabe isso melhor do que ninguém. Nem sempre fala nisso mas ninguém sabe isso melhor do que a banca e eu vou dizer por qual é a razão. Há sectores mais resistentes e mais resilientes do que o sector Agrícola nos Açores, neste país ou pela Europa fora? Se há alguém que saiba, que diga”, referiu.
E prosseguiu: “Os bancos que faliram foram por causa do sector agrícola? Os bancos que estão ligados ao sector agrícola, todo o investimento que foi feito no sector agrícola patrocinado pela Agrogarante na Agricultura, têm tido grandes problemas? Os senhores é que têm de dizer. É obrigação da banca também dizer isso, não é só nós. Eu sou parte e a banca é a outra parte. A banca que esteve situada, ao longo destes anos, na Agricultura, foi aquela que menos problemas teve”.
Para o Presidente da Federação Agrícola dos Açores, o que “falta é darmos o salto e isso não cabe aos produtores. Os produtores fazem bem o seu trabalho que é produzir com qualidade. As indústrias estão a caminho de fazer melhor e têm obrigação de fazer melhor que é valorizar no mercado esta excelente matéria-prima que têm que é o leite e ao governo regional compete continuar na valorização das infra-estruturas, melhores caminhos, mais água, mais luz. E também compete ao governo trabalhar em campanhas de marketing e todos nós estamos a fazer isso em conjunto”.
Agora, insistiu, “precisamos dar o salto na valorização. Não é mais. É melhor, vender melhor. Temos produto, temos qualidade. O que temos é de acrescentar valor à excelente qualidade que nós temos”.
A intervenção de Jorge Rita foi sempre frontal contra os que duvidam da fileira do leite. “A pergunta tem de ser feita de uma forma diferente. Se o ciclo do leite acabasse nos Açores, o que seria a economia da Região Autónoma? O que era a Região sem ter vacas e sem ter leite, e sem ter queijo? Alguém é capaz de pensar (silêncio)”.
“Se o leite falisse na Região já pensaram no descalabro que seria em termos económicos e em termos sociais?”
E Jorge Rita prosseguiu: “Se o leite falisse na Região já pensaram no descalabro que seria em termos económicos e em termos sociais? Alguém já se atreveu a fazer estas contas? Contabilizar quantas pessoas vão para o desemprego. Quanto é que vamos deixar de exportar. Quanto é que deixamos de importar, quanto é que deixamos de comercializar, quantas pessoas é que deixam de viver em função disso?”, questionou.
“O que eu quero dizer com isso”, explicou, “é que é impensável alguém julgar, no meu ponto de vista, que o ciclo do leite um dia vai terminar. Vai haver ouros ciclos que vão terminar e nós até sabemos quais são. E outros até são muito mais voláteis do que aquilo que as pessoas pensam”, sublinhou.
Logo que começou a falar, o Presidente da Federação Agrícola dos Açores, inver-teu a questão colocada pelo moderador: “Começava por inverter sustentabilidade por valor acrescentado. Valor acrescentado primeiro, sustentabilidade depois. Para um sector ser sustentável, hoje, a base é o valor acrescentado que se aplica nos Açores – que é produzir com valor acrescentado. E a sustentabilidade, no meu ponto de vista, vem a seguir”, afirmou.
Na opinião de Jorge Rita, “só é sustentável a Região em matéria de Agricultura se conseguirmos valorizar melhor aquilo que temos e aquilo que produzimos, aquilo que fazemos e aquilo que oferecemos. E quando falamos em ‘oferecemos’, o termo é transversal a todos os sectores da activi-dade económica da Região”, disse.
Quanto à questão dos ciclos, referiu, “eles existem, são discutidos. Uns defen-dem-nos de uma forma e outros de outra. Sei que até muita gente gostava de acabar com o ciclo da vaca e do leite. Sei que há muita gente que gosta de inventar. Uns inventaram a roda, outros os ciclos…”, ironizou.
“O que é preciso”, prosseguiu, “é perceber porque é que os outros ciclos termi-naram. Se calhar, muita gente ainda não sabe as razões porque os outros ciclos terminaram e é preciso perceber porque é que o ciclo do leite e da vaca está para durar nos Açores”.
De harmonia com Jorge Rita, “é bem evidente a necessidade de continuarmos a produzir. A Agricultura tem um peso fundamental na nossa economia. Representa 50% da economia dos Açores. Quando se fala de emprego, representamos 13% do emprego directo na Região. Quando se quiser falar de forma indirecta, a maior parte das pessoas que estão aqui nesta sala também estão ligadas à Agricultura. Estamos a falar de perto de 50% da população activa dos Açores que está ligada à Agricultura”.
“Muita gente ainda não sabe as razões por que os outros ciclos terminaram e é preciso perceber por que é que o ciclo do leite e da vaca está para durar nos Açores”.
“Afirma-se que a Agricultura represen-ta um VAB (Valor Acrescentado Bruto) nos Açores de 9%. Mas, no VAB dos Açores, se alocarmos a agro-indústria e todos os serviços que vivem a montante e a jusante do sector agrícola, se calhar o Produto Interno Bruto passará de 21 a 23% conforme as contas dos perfeccionistas que as fazem ou conforme a conveniência de alguns. OS números dão para todos brincarem, 2,4,6,8,10, 12… como toda a gente sabe” (sorrisos).
As Regiões e os países, segundo Jorge Rita, “valem por aquilo que exportam. Não é por aquilo que importam. E nós somos uma Região de excelência na exportação, na área do leite, na área da carne e em algumas outras produções, sabendo que ainda existe aqui um grande ciclo que é preciso inverter, que é algumas importações na área das hortícolas e na área da própria diversificação agrícola. Penso que temos capacidade, temos pessoas capazes e o governo também apoia, precisamente, medidas para alavancar este tipo de pro-duções que não conflituem com o sector leiteiro”, sublinhou.
E concluiu: “O valor real do leite na Agricultura dos Açores representa 73%. Portanto, nesta fase, é insubstituível”.
João Paz