
Nos Açores, é difícil produzir em quantidade e com rentabilidade, os transportes dificultam a exportação e o preço é, normalmente, elevado. Mas que o produto agrícola açoriano é bom e tem um grande potencial de marca, disso quase ninguém duvida.
Por isso, mais do que apoios, que até se deverão manter mesmo em tempo de crise financeira, o que falta neste momento ao setor agrícola nos Açores é uma maior organização interprofissional, um organismo - como o Centro do Leite e Laticínios que há anos não sai do papel, com este ou outro nome - que consiga juntar à mesma mesa sem posições radicais ou estanques a produção, a indústria e até a distribuição.
Isto para, não só rentabilizar melhor toda a cadeia, desde a extração do leite da vaca até ao momento em que é servido à mesa do consumidor final, por exemplo, como também para reunir esforços visando a sempre difícil abertura de portas para a exportação.
Esta foi uma das ideias mais transversais saídas da quarta conferência - de um ciclo de seis - organizada ontem pelo Açoriano Oriental na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada e que teve como tema a Agricultura no Horizonte 2025. Uma ideia defendida desde logo pelo primeiro orador e consultor da conferência, Fernando Lopes, da Universidade dos Açores, que deu à sala onde estavam presentes muitas caras conhecidas ligadas ao setor agrícola nos Açores uma visão geral da agricultura na Região.
Mas como a agricultura e, sobretudo, a formação dos preços, não vive sem apoios e porque o novo POSEI no horizonte 2014/2020 - que garante sensivelmente a mesma verba do último Quadro Comunitário de Apoio, cerca de 77 milhões de euros/ano para os Açores - vai entrar em discussão pública, o secretário regional dos Recursos Naturais, Luís Neto Viveiros, lançou também ontem um apelo à ampla participação de todo o setor agrícola nesse debate.
Isto para que a regulamentação do POSEI, dos produtos que serão apoiados e das verbas a atribuir a cada um deles seja o mais consensual e participada possível. Na intervenção com que abriu a conferência do AçorianoOriental, Luís Neto Viveiros começou por salientar a importância deste debate que agora se lança porque serão as decisões políticas que agora se irão tomar que serão determinantes para os próximos sete anos do setor agrícola nos Açores, um setor que, salientou, tem resistido bem à crise e tem conseguido ter na Região um crescimento sustentável. Um crescimento que, no entender do secretário regional, terá de ser apoiado agora e cada vez mais na vertente da inovação e da manutenção da qualidade ambiental da agricultura açoriana.
Logo a seguir, Fernando Lopes lembrou que, desde a década de 1960, os Açores perderam muita da população diretamente ligada à agricultura, embora as explorações tenham hoje muito mais produção do que tinham antigamente. No entanto, salienta, por cada jovem agricultor, há hoje seis a sete agricultores com mais de 55 anos, em explorações essencialmente familiares. A ‘pirâmide agrícola’ açoriana está assim, alerta Fernando Lopes, com ‘pés de barro’.
Outro problema, para o professor da Universidade dos Açores e que já foi secretário regional da Agricultura, é o da falta de formação no setor agrícola - feita essencialmente de pais para filhos nas explorações - e que, apesar dos esforços que têm sido feitos, ainda é hoje em dia um dos setores de atividade onde mais se nota o abandono escolar. “O futuro está comprometido”, alertou Fernando Lopes, que não deixou de apontar ao dedo à própria Universidade dos Açores, cujo Departamento de Ciência Agrárias, no seu entender, nunca conseguiu formar os quadros de que a Região tanto necessita, embora tenha formado muitas pessoas para a Administração Regional ou para o ensino. Contudo, a maioria destes técnicos não enveredou pela carreira de empresário agrícola. E apelou a uma maior oferta de ensino profissional nessa área.
A fechar o período da manhã, João Lança, presidente do Instituto de Alimentação e Mercados Agrícolas (IAMA), fez um historial das várias reformas da Política Agrícola Comum (PAC) nos últimos 20 anos, para lembrar como é difícil fazer previsões neste setor perante um quadro legislativo europeu que se tem pautado por uma grande instabilidade. As reformas sucederam-se: cinco reformas entre 1992 até se chegar ao ponto em que estamos. Nos Açores, o Poseima, primeiro e o Posei, depois, impediram sempre que algumas reformas mais polémicas na agricultura europeia chegassem à Região. E num cenário de manutenção do envelope financeira para o próximo Quadro Comunitário de Apoio, João Lança alertou, tal como já o havia feito Luís Neto Viveiros, para a importância de se aproveitar a discussão pública do Posei, que agora se vai abrir, para definir bem as prioridades para o futuro.
E quer João Lança, quer Fernando Lopes, foram da opinião que não deve partir do Governo a definição das prioridades, mas sim daquilo que os mercados estão a pedir e do que os agricultores entenderem que lhes pode trazer maior rentabilidade e futuro. Isto porque a mudança do modelo agrícola açoriano não se pode fazer somente com um decreto. Uma das questões faladas durante os períodos de debate da conferência, foi a do papel das cooperativas, com bastante força em São Miguel e Terceira e com dificuldades, sobretudo financeiras, nas restantes ilhas. Foi lembrada a importância da opção política de manter cooperativas em ilhas pequenas quando, de outra forma, o setor não se organizaria e falou-se também da possibilidade de uma maior responsabilização dos agricultores nas cooperativas, através do investimento de capital próprio, que trave o recursos sistemático à banca, cujos encargos agora ‘asfixiam’ financeiramente as cooperativas.
À tarde, a conferência teve dois painéis: o primeiro sobre os setores não tradicionais e o segundo sobre os setores tradicionais. Fernando Sieuve de Menezes, presidente da cooperativa Fruter, falou da exploração dos setores hortícola e frutícola nos Açores e de um outro produto da diversificação agrícola - as flores - como um exemplo de sucesso na exportação mas, precisamente nessa área, apresentou a sua maior crítica: os transportes marítimos e aéreos são caros e desadequados a quem exporta produtos agrícolas nos Açores, fazendo com que o produto chegue caro ao destino e com que, por vezes, se percam mesmo alguns negócios. E voltou a afirmar a necessidade de haver um avião cargueiro nos Açores.
Cargueiro que, como alertou o orador seguinte, Paulo Neves, diretor-geral da INSCO, a empresa que gere as lojas Continente nos Açores, tanto pode abrir as portas à exportação açoriana, como tornar a Região ainda mais vulnerável às importações, porque os aviões não regressarão vazios aos Açores. Dando a visão da grande distribuição, Paulo Neves lembrou que muitas coisas mudaram desde 2008 nos hábitos dos consumidores e que hoje, mais do que nunca, o que conta é o fator preço: “não pagamos mais pelo que não precisamos de pagar”, afirmou. Paulo Neves alertou os produtores açorianos para a necessidade de terem boas políticas de preços - porque a qualidade do produto açoriano não vende só por si - e afirmou que, se por um lado, ainda só 26 por cento das compras da INSCO são de produtos agrícolas regionais, com tendência para aumentar desde que se criou o Clube dos Produtores há, por outro lado, 74 por cento de compras que o mercado de consumidores açoriano absorve e que podem ser preenchidas pelos produtores regionais, logo que apresentem um produto mais competitivo.
No painel dedicado aos setores tradicionais, Eugénio Câmara deu a visão de um jovem agricultor sobre o futuro da produção de leite nos Açores. E traçou o modelo do que entende ser a exploração agrícola do futuro na Região: uma exploração emparcelada, com cerca de 60 vacas em pastoreio permanente (para salientar o caráter ‘verde’ da agricultura açoriana) recorrendo ao suplemento alimentar apenas no necessário, com melhor gestão, genética e maquinaria adaptada ao maneio de cada exploração e mantendo o espírito familiar.
Por fim, falou Pedro Pimentel, diretor geral da CentroMarca, que durante muitos anos esteve na Associação Nacional dos Industriais da Laticínios, conhecendo, por isso, muito bem os Açores. Pedro Pimentel afirmou que a carne, os laticínios, o peixe e as conservas são produtos açorianos com valor acrescentado em qualquer mercado - estão mesmo em alta nos mercados internacionais - podendo assegurar um futuro auspicioso à agricultura açoriana. Lembrou que exportar é difícil e, por isso, apelou à união de esforços nos Açores, concluindo que o turismo pode ser um fator importante na divulgação dos produtos açorianos. Ou seja, trazendo as pessoas a prová-los nos Açores, em vez de se levar os produtos açorianos aos seus países de origem.
FONTE: Açoriano Oriental