Impacto do parasitismo em vacas leiteiras.

Como maximizar os benefícios da desparasitação?

As doenças parasitárias, principalmente as causadas por parasitas internos (comumente chamados ‘lombrigas’), constituem um importante problema em explorações de bovinos em pastoreio, sejam de vacas leiteiras ou aleitantes, a nível mundial. São um factor limitante para a saúde do animal, sua produtividade, e consequentemente acarretam graves perdas económicas para as explorações.

Podemos considerar que existem 3 principais grupos de parasitas internos: nemátodos gastrointestinais (parasitas do aparelho digestivo), nemátodos pulmonares (parasitas do aparelho respiratório) e tremátodos (neste grupo o mais comum é a Fasciola hepática, parasita do fígado). Este artigo irá focarse no impacto produtivo dos parasitas gastrointestinais em vacas leiteiras. Os parasitas alimentam-se de nutrientes e/ ou sangue do hospedeiro.

O seu impacto na saúde do animal está em parte dependente das suas defesas individuais. Na maioria das vezes o parasitismo é subclínico, ou seja, os animais não apresentam sintomas da doença, apesar de terem a sua saúde e produtividade afectadas. Os animais com o sistema de defesas mais debilitado (p.e. animais mais jovens, em má condição corporal, doentes ou vacas recém-paridas) são os mais susceptíveis de ficarem doentes, podendo apresentar sintomas clínicos.

Como exemplo, temos as diarreias e pneumonias de origem parasitária. Atrasos no crescimento, quebras na produção leiteira, diminuição da eficiência reprodutiva, diminuição do ganho médio diário e
rejeições parciais de órgãos no matadouro, são consequências frequentes das infecções parasitárias. Na recria leiteira, os efeitos negativos do parasitismo gastrointestinal estão devidamente comprovados. Sabe-se que os atrasos de crescimento daí decorrentes, afectam negativamente a produção de leite durante a 1ª e 2ª lactação, atrasam a entrada à puberdade (aumentando a idade ao 1º parto), diminuem o diâmetro do canal pélvico (maior probabilidade de haver dificuldades durante o parto) e, consequentemente, aumentam a taxa de refugo involuntário de novilhas de reposição  (Perri et al., 2011, Vet. Parasitology; Charlier et al., 2009, Vet. Parasitology). Durante muitos anos considerou-se que os animais adultos facilmente lidavam com os parasitas e que o seu sistema de defesas minimizava a sua acção patogénica. De facto, na maioria das vezes a doença é subclínica, no entanto, tendo como base estudos recentes, sabe-se que afecta severamente a performance produtiva e reprodutiva das vacas leiteiras adultas.

Num estudo realizado na Argentina, em 3 explorações leiteiras em pastoreio (total de 191 animais), verificou-se que havia quebras na produção de leite entre 7% a 15%, em vacas que estavam parasitadas durante o último mês de gestação e o 1º mês após o parto, comparando com vacas que não estavam parasitadas nesses mesmos meses (Perri et al., 2011, Vet. Parasitology).

Neste estudo, também se verificou que é neste período de tempo (fase de transição) que as vacas têm maiores contagens de ovos de nemátodos nas fezes (Gráf. 1).

De facto, as vacas leiteiras estão mais sensíveis ao parasitismo nesta fase da sua vida produtiva, devido ao stress (deprime as defesas naturais do animal) e alterações metabólicas associadas. Estão também reportados outros efeitos negativos do parasitismo como: diminuição na ingestão de alimento, diminuição da eficiência alimentar, aumento do intervalo entre parto e concepção, etc. Nos Açores, as condições climatéricas (clima temperado e chuvoso) são favoráveis ao desenvolvimento de parasitas na pastagem (principal fonte de infecção para os animais). Uma vez que o pastoreio é o suporte alimentar das explorações leiteiras açorianas, presume-se que exista um elevado risco de exposição dos animais aos parasitas. A Pfizer Saúde Animal, juntamente com veterinários de 4 ilhas do arquipélago dos Açores (S. Miguel, Terceira, Faial e Pico), realizou um estudo com o objectivo de avaliar o risco da exposição das explorações leiteiras à Ostertagia ostertagi (parasita gastrointestinal mais patogénico).

Este estudo baseia-se na medição do nível de anticorpos anti-Ostertagia ostertagi no leite de tanque.
Quanto maior o nº de anticorpos maior a exposição dos animais a este parasita, tal como o quadro 1 demonstra (guia de interpretação dos resultados).
Além de avaliar o risco de exposição ao parasita, este teste de diagnóstico também permite fazer uma previsão sobre o benefício de realizar um tratamento anti-hemíntico na exploração. Como exemplo, explorações que tenham um valor de anticorpos (expresso em ODR) superior a 0.7, consideram-se que têm alto risco de exposição ao parasita, sendo alta a probabilidade de os animais estarem a sofrer efeitos negativos na sua saúde e produtividade. A probabilidade de existir uma resposta positiva ao tratamento, em termos de aumento da produção de leite, é elevada.

A Pfizer Saúde Animal, juntamente com veterinários de 4 ilhas do arquipélago dos Açores (S. Miguel, Terceira, Faial e Pico), realizou um estudo com o objectivo de avaliar o risco da exposição das explorações leiteiras à Ostertagia ostertagi (parasita gastrointestinal mais patogénico). Este estudo baseia-se na medição do nível de anticorpos anti-Ostertagia ostertagi no leite de tanque.
Quanto maior o nº de anticorpos maior a exposição dos animais a este parasita, tal como o quadro 1 demonstra (guia de interpretação dos resultados).

Quadro 1 – Guia de interpretação dos resultados obtidos na avaliação do risco de exposição dos efectivos leiteiros à Ostertagia ostertagi.

Os níveis de anticorpos contra a Ostertagia ostertagi estão inversamente relacionados com a produção de leite. Quer isto dizer que, quanto mais elevados forem os níveis de anticorpos maior será a quebra na produção de leite (Kg/vaca/dia), tal como o gráf. 2 demonstra (Forbes et al., 2008, Vet. Parasitology).

Gráfico 2 – Relação entre níveis de anticorpos anti-Ostertagia ostertagi (Ostertagia ODR) e quebras estimadas na produção
leiteira (Kg/ vaca/ dia). Forbes et al., 2008, Vet. Parasitology.

 

As linhas a vermelho no gráfico pretendem dar um exemplo de como se deve fazer a devida interpretação.
Neste caso, numa exploração que o nível de anticorpos para a Ostertagia ostertagi seja de 0.9, estima-se que haja uma perda média de leite > 1 Kg/vaca/dia. De momento já existem os resultados das ilhas de S. Miguel e Terceira. No conjunto das 2 ilhas, o nº total de explorações amostradas foi de 72 (33 em S. Miguel e 39 na Terceira).

Quadro 2 – Resultados da avaliação do nível de anticorpos anti-Ostertagia ostertagi, em leite de tanque de 72 explorações, nas ilhas de S. Miguel e Terceira.

Os resultados, apesar de preliminares, permitem-nos concluir que a maioria das explorações das ilhas de S. Miguel e Terceira, estão sujeitas a uma elevada exposição ao parasita Ostertagia ostertagi, existindo alta probabilidade de haver uma resposta positiva, em termos de aumento na produção de leite, se for efectuada uma desparasitação aos animais dessas explorações (quadro 2). Tendo em conta, que as infecções parasitárias afectam a rentabilidade económica das explorações leiteiras em pastoreio, torna-se óbvio que devem ser implementadas medidas de controlo de forma a minimizar o seu impacto negativo na saúde e produtividade dos animais. Como principais medidas de controlo temos o maneio das pastagens e a utilização de anti-helmínticos. O objectivo do maneio das pastagens é diminuir o contacto entre os animais e os parasitas. Como exemplos deste tipo  de medidas temos: restringir o acesso a pastagens suspeitas de estarem muito contaminadas, limitar o acesso ao pastoreio em determinados períodos do dia, etc. Na realidade açoriana, nas explorações em pastoreio permanente e com necessidade de fazer rotação frequente das pastagens, estas medidas são muitas vezes de difícil implementação.

A utilização de anti-helmínticos (desparasitação) por rotina, é de facto, a principal medida preventiva que, muitas vezes, o maneio nos permite adoptar.
A implementação de protocolos de desparasitação deve ser feita de forma sustentável. O tratamento deve ser realizado, se possível, no momento em que o animal está mais sensível ao parasitismo, maximizando a resposta em termos de produção de leite, para se obter um retorno económico. A utilização de fármacos deve ser racional, para  evitar a disseminação de parasitas resistentes que podem condicionar o sucesso dos protolocos instituídos. No que respeita às vacas leiteiras em produção existem 2 alternativas de tratamento: tratamentos estratégicos ao longo do ano em todos os animais adultos da exploração ou tratamentos individuais de acordo com a fase fisiológica (durante o período de secagem). A desparasitação estratégica de todos os animais ao mesmo tempo é uma abordagem mais simples em termos de maneio, mas que acarreta alguns aspectos menos interessantes. Em primeiro lugar, implica a escolha de fármacos em função do intervalo de segurança, o que pode obrigar a deixar de parte outros medicamentos cujo efeito terapêutico e/ ou preventivo se considerem serem mais adequados à exploração. As desparasitações aplicadas desta forma “a varrer”, sobretudo quando imediata mente seguidas do movimento de todo o efectivo para uma pastagem “limpa” (não pastoreada nos últimos tempos), envolve também o risco de se desenvolverem resistências por parte de alguns parasitas.

De qualquer forma, quando se considerar este tipo de abordagem, é importante ter em mente que se devem selecionar momentos do ano em que o nível parasitário na exploração mais beneficia do tratamento. Isto conseguese com recurso à realização periódica de análises coprológicas (de fezes) a um grupo de animais da exploração.
A grande vantagem de desparasitar os animais durante o período de secagem é permitir que o tratamento seja efectuado antes do período em que o animal está mais sensível ao parasitismo (potenciação da produção de leite da lactação que se avizinha). Para além de proteger cada animal na fase crítica que é o início da lactação, esta abordagem minimiza o aparecimento de parasitas resistentes, uma vez que não se realiza o tratamento “a varrer” da totalidade do efectivo.

Segundo estudos recentes, idealmente a desparasitação deve ser feita nas últimas 3 semanas da gestação (período de transição). Nestas semanas as necessidades em energia e nutrientes por parte da vaca leiteira aumentam à medida que a data do parto se aproxima e começa  o estímulo para a produção de leite.

Como já referimos, é neste período que o animal é mais sensível aos parasitas, que diminuem a ingestão de alimento pré e pós-parto e, consequentemente, agravam a depressão do sistema de defesas do animal e o balanço energético negativo. A desparasitação do animal neste período permite optimizar a ingestão pré e pós-parto, fortalecer o sistema imunitário e evitar carências alimentares, favorecendo a entrada do animal na nova lactação.

Em S. Miguel, existem zonas perfeitamente conhecidas com risco de Fasciolose, doença parasitária do fígado, com grave impacto na saúde e produtividade dos animais.
Nestas áreas geográficas deve ser naturalmente considerada a utilização de um anti-helmíntico com espectro de acção para a Fasciola hepática.
Qualquer protocolo de prevenção deve ser adaptado à realidade da exploração. Deve ter em conta o risco de exposição aos parasitas, o tipo de parasitas presentes, deve ser fácil de implementar e ter a melhor relação custo-benefício. Para esclarecimentos adicionais acerca do tema, consulte o médico veterinário assistente da sua exploração.

Bibliografia:

- Borgsteede F.H.M et al. (2000),

“Nematode parasites of adult dairy cattle in the Netherlands”, Vet. Parasitology, 89: 287-296;

- Charlier J. et al. (2010), “Evaluation of anti-Ostertagia ostertagi antibodies in individual milk samples as decision parameter for selective anthelmintic treatment in dairy cows”, Prev. Vet. Medicine, 93: 147-152;

- Charlier J. et al. (2009), “Gastrointestinal nematode infections in adult dairy cattle: impact on production, diagnosis and control”, Vet. Parasitology, 164: 70-79;

- Forbes et al. (2008), “A survey of the exposure to Ostertagia ostertagi in dairy cow herds in Europe through the measurement of antibodies in milk samples from the bulk tank”, Vet. Parasitology,
157: 100-107;

- Perri et al. (2011), “Gastrointestinal parasites presence during the peripartum decreases total milk production in grazing dairy Holstein cows”, Vet. Parasitology;

- Sanchez J. et al. (2005), “The use of an indirect Ostertagia ostertagi ELISA to predict milk production response after anthelmintic treatment in confined and semi-confined dairy herds”, Vet. Parasitology, 130: 115-124;

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