A SEMENTEIRA DO MILHO

Mais uma campanha de sementeiras de milho forrageiro se avizinha e, com ela, dificuldades em se conseguir a produção rentável que tantose deseja. Como se tem observado nos últimos tempos, a região dos Açores encontra-se sob efeitos de alterações climáticas que, por sua vez, afectam a produção agrícola devido às secas que se têm verificado nas alturas críticas da produção de pastagem e de milho.

O milho é uma cultura bastante afectada quando a disponibilidade de água é limitante (não pior do que as pastagens), pois impede a assimilação de nutrientes essenciais ao desenvolvimento e crescimento das plantas, condicionando a produção final (foto n.º 1).

De forma a minimizar os efeitos nefastos da escassez de água sobre a produção de milho, existem cuidados adicionais para os quais os agricultores deverão ser aconselhados e alertados para que, no final da colheita não se deparem com prejuízo em detrimento do lucro. Todas as tarefas de instalação, maneio e colheita da cultura deverão ser planeadas com antecedência, de forma a evitar tomar decisões precipitadas e garantir que todos os recursos necessários estejam disponíveis.

A mobilização do solo é das primeiras operações que se efectuam no terreno, pretendendo-se um solo que possua uma boa retenção para a água, boa aderência às sementes e boa oxigenação e drenagem. É muito frequente o uso indisciplinado da fresa, que destrói e pulveriza a camada superficial do solo, agravando a compactação da camada arável para além da enorme erosão que provoca.
Em situações de falta de água, o uso da fresa é completamente desaconselhado, pois a pulverização da superfície do solo irá provocar a sua rápida dessecação e causar problemas na germinação das sementes.  Em alternativa, é aconselhado efectuar uma ripagem ou subsolagem para descompactar o solo em profundidade. Esta operação permite que as raízes vão mais fundo em busca da água e garante uma maior resistência da cultura à seca. A passagem de uma grade ou vibrocultor permite abrir o solo, sem trazer à superfície componentes menos importantes, pedras e camadas de solo menos ricas em matéria orgânica e de baixa fertilidade, para além de evitar o dessecamento destas camadas e deixando o solo relativamente arejado e nivelado. É também a operação ideal para incorporaro adubo de fundo.

O recurso à sementeira directa (foto n.2) é uma alternativa, pelo que permite conservar a água retida no solo para além de evitar a sua erosão. Contudo, esta técnica exige conhecimentos base da textura e estrutura do solo, não tendo sucesso em solos muito argilosos ou demasiado compactos, se em anos anteriores não se tiver descompactado em profundidade. Segundo um ensaio de sementeira directa de milho realizado pela AJAM em 2010, verificou-se que as raízes das plantas não conseguiram penetrar o solo além de sensivelmente 10 cm de profundidade, quando esta técnica é utilizada em solos pesados e que são constantemente submetidos a mobilizações, podendo apresentar calos. Por outro lado, numa determinada parcela cujo solo não é mobilizado com frequência e no qual foi feita uma subsolagem, observou-se um bom desenvolvimento das plantas durante todo o ciclo. Contudo, é importante que a sementeira seja realizada cedo e as infestantes sejam bem controladas, para garantir o sucesso desta técnica.

“Os terrenos de elevada altitude, acima dos 500 metros, não são aconselhados”

A escolha do híbrido que se vai utilizar na sementeira é dos aspectos mais importantes a ter em conta, uma vez que é a partir destas sementes que se vai obter a forragem pretendida. Portanto, o híbrido deverá ser escolhido consoante as condições de solo e clima em que se vai desenvolver.

É nas zonas de baixa altitude que se cultiva maior área de milho para forragem, devido à maior fertilidade do solo nestas zonas e às condições climáticas favoráveis que se registam, permitindo maiores produções. Nos terrenos de média altitude, cujo clima se apresenta ligeiramente mais frio e com menos insolação, os híbridos devem ter ciclos FAO mais curtos.

Os terrenos de elevada altitude, acima dos 500 metros, não são aconselhados, pois até mesmo a produção de pastagem de qualidade é condicionada pelas baixas temperaturas que
se verificam nestas zonas, declive e excesso« de humidade no Outono e Inverno.

Assim sendo, são recomendados híbridos de ciclo médio/longo (FAO 600-700) para as zonas de baixa altitude, utilizando uma densidade de sementeira normal na ordem das 80 000 plantas por hectare.
Para as zonas de média altitude recomendam- se semi-híbridos precoces, ou seja, de ciclo mais curto (FAO 300-500), aumentando ligeiramente a densidade de sementeira para compensar a menor produção, pelo facto destes híbridos estarem menos tempo na terra. Antes de se iniciar a sementeira é importante que se conheça o estado de fertilidade da parcela, pelo que é recomendado realizar-se uma análise ao solo com antecedência.
Conhecendo então o pH e os níveis de fertilidade do solo, devem ser feitos os ajustes e respectivos cálculos de adubação em fósforo e potássio, caso seja necessário. Como o azoto não é determinado por análise, a sua aplicação no solo deverá ser calculada consoante as necessidades da cultura. O pH do solo é um factor determinante do crescimento das plantas e na disponibilidade e assimilação dos nutrientes, pelo que deverá ser corrigido caso seja necessário.

O fósforo e o potássio deverão ser incorporados no solo como adubação de fundo, antes da sementeira ou no momento desta. Não compensa aplicar estes nutrientes depois da sementeira, porque sendo nutrientes pouco móveis no solo a sua assimilação pelas plantas não é eficaz. É na fase inicial que o milho tira maior proveito da assimilação dos nutrientes porque vão ser determinantes no crescimento radicular e diferenciação dos restantes órgãos da planta. Sendo o azoto um nutriente que facilmente se perde no solo, uma parte deverá ser aplicada no momento da sementeira e a restante numa fase posterior, normalmente por volta das 7-8 folhas (fase joelheiro). Alertam-se os agricultores para que, a adubação de cobertura com azoto deverá ser feita com solo húmido, caso contrário o azoto ficará à superfície praticamente intacto e acabando por se volatilizar, levando a mais um prejuízo. Este ano deverá garantir-se que as sementeiras são realizadas bem cedo, para permitir que as plantas encontrem humidade suficiente no solo para levarem a cabo o seu desenvolvimento e assimilação dos nutrientes.

Cair no erro de semear o milho tarde corre-se o risco de um enorme prejuízo, uma vez que se avizinha uma Primavera e Verão com poucas reservas de água no solo. Normalmente, quanto mais cedo o milho é semeado maior o seu potencial produtivo, nomeadamente em grão. O controlo das infestantes irá condicionar também o bom desenvolvimento das plantas, pelo que deverão ser eliminadas antes ou logo após a sementeira do milho, recorrendo a herbicidas.

A aplicação do herbicida logo antes ou após a sementeira funciona muito bem, pois permite a sua actuação nas infestantes enquanto as plantas de milho emergem. Quando a aplicação é feita muito cedo, corre-se o risco de surgirem  novas infestantes na altura da emergência do milho, competindo com este em água e nutrientes. Uma possível forma de evitar isso é utilizar herbicidas com efeito residual, que impedem que asinfestantes surjam novamente.

Após agerminação das plantas, normalmente começam a surgir infestantes típicas, as quais deverão ser controladas através da aplicação de herbicidas específicos. O controlo destas infestantes deverá ser feito numa fase precoce do seu desenvolvimento, pois o objectivo é atingi-las quando se encontram num estado sensível, garantindo assim a eficácia do herbicida. Em termos de ataques de pragas e doenças é comum ocorrerem problemas no início do desenvolvimento das plantas, verificando-se atrasos no crescimento. À primeira vista aparenta um problema de fertilização, mas pode ser causado por fungos ou insectos que se alojam no solo e que atacam as raízes ou os caules das plantas, impedindo que se desenvolvam, podendo levá-las mesmo até à morte. De forma a evitar ataques de fungos ou insectos, é altamente recomendado que se utilizem sementes previamente tratadas com fungicidas e insecticidas.

Ao longo do desenvolvimento das plantas e em fases mais avançadas, podem surgir ataques de larvas que destroem toda a parte verde da planta (foto n.º 3), assim como também as espigas, podendo causar graves prejuízos na produção caso não sejam detectadas e controladas a tempo. É importante que o milho seja colhido na altura certa, pois a maturidade à colheita pode afectar a qualidade da silagem, porque influencia o teor em amido, bem como a digestibilidade. Deve ser colhido depois dos grãos estarem bem consistentes, mas antes das folhas começarem a ficar amarelas e secas. O milho colhido na fase de grão leitoso ou pastoso, vai disponibilizar menos nutrientes para a alimentação animal do que se colhido mais tarde, para além de poder também fermentar indevidamente no silo se for colhido cedo demais. Após a fase de grão dentado, o valor alimentar das folhas e dos caules diminui e as perdas de campo aumentam.

Normalmente, tenta-se colher o milho quando a linha de leite se situa a 1/3 da base de inserção do grão.

É nesta altura que o grão já acumulou uma boa percentagem de amido e apresenta o valor energético mais elevado. Colher o milho nesta fase, geralmente resulta num teor de humidade próximo do óptimo para o armazenamento da silagem de milho.

 

 

A imagem acima (fig. 4) mostra a evolução da linha de leite no grão (maturidade) e o rendimento esperado. Fonte: http://www.ag.ndsu.edu/pubs/ansci/dairy/as1253w.html

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